jueves, 16 de mayo de 2013

O Papel da Comunicação Científica numa Sociedade Democrática




  Enviado por Luciano Medina Neto – Jornalista

É imperativo destacar a história do desenvolvimento da ciência, da tecnologia e da comunicação no Brasil, principalmente no período do regime militar, momento de cerceamento à livre circulação do pensamento criativo e da informação. São conhecimentos que se desenvolvem de forma integrada.  Mesmo sob o controle da ditadura, a difusão do conhecimento e a disseminação da ciência fluem sob uma determinada realidade que se altera ao longo dos anos. A perseguição e exílio a cientistas caracterizam o cenário no período militar, mesmo diante da forte pressão do regime, há a necessidade de desenvolver a pesquisa e a ciência no país, pois são demandas importantes e estratégicas para a estabilidade do próprio regime naquele momento.

O governo militar dependia dos esforços de cientistas opositores no campo da pesquisa. O compromisso entre essas duas forças, a política e a científica se fizeram notar a partir do avanço da agricultura, com o fortalecimento da EMBRAPA e as pesquisas em informática e em engenharia aeroespacial, que também são destaques e resultado dessa ambigüidade ciência e ditadura. Pressupunha naquela conjuntura a convergência entre comunicação e ciência; discussões realizadas no interior do SBPC no Rio de Janeiro repercutiam na imprensa. O surgimento dos cursos de pós-graduação de ciências humanas é outro imperativo destacável na ambígua relação ciência e regime militar.

Do ponto de vista da ciência da comunicação, são destaques a mobilização e criação de cursos de comunicação desvinculados de departamentos de filosofia e de letras. O surgimento da Revista científica Comunicações & Problemas empreendido por Luiz Beltrão em 1965 na cidade do Recife dá conta da evolução de pesquisa na área. Após a transferência da revista para Brasília sua sobrevivência perdurou até 1969 em virtude da forte pressão exercida pela ditadura. Com a censura à cobertura política, se inicia um processo de segmentação da comunicação e, por conseguinte do jornalismo. Em meados de 1978 o Jornal Folha de São Paulo sob a orientação e coordenação do professor de física da Unicamp Rogério Cesar de Cerqueira Leite inaugura uma página destinada à divulgação e ao jornalismo científico. A idéia do professor Cerqueira Leite com a página era estimular o interesse do público pela ciência. 

A partir dessas experiências o processo de divulgação científica através de páginas especiais e editorias de jornais impressos se projetam como um elemento essencial ao desenvolvimento ainda embrionário da comunicação científica no Brasil. O desafio, antes e após a anistia geral e irrestrita era de criar mecanismos de comunicação que pudesse facilitar em todos os aspectos a disseminação e a divulgação da produção científica e tecnológica do Brasil. Essa é uma tarefa que se constitui permanente, sobretudo com as perspectivas advindas das redes de computadores em expansão nos EUA e com as possibilidades ainda desconhecidas da internet, também nos EUA.  Mais tarde a internet, de natureza tecnológica se configura como um potencial meio de comunicação alterando e inovando as formas de relacionamento em todos os aspectos da realidade no dia a dia. O regresso do Brasil à democracia e a necessidade de se construir uma sociedade plena de direitos demandou dos centros de pesquisas, instituições, de cientistas e jornalistas um esforço no sentido garantir um novo modelo de sociedade, novos formatos e maneiras diferentes de difundir a informação, com criatividade, crítica e opinião.

O debate acerca da comunicação científica numa sociedade democrática é abrangente, permanente e inesgotável. Ambos estão entrelaçados, dialogam entre si, são abertos e suscetíveis ao novo. As transformações no campo social, a preservação, ampliação e criação de novos direitos inserem o país em um novo marco político e caracteriza a participação direta e indireta da população nos processos de decisão. No campo da ciência e da tecnologia o destaque para o avanço da internet e a constituição de uma nova sociedade, a da informação em rede. A virtualização da informação nos últimos anos e os seus impactos nos padrões de relacionamento na sociedade, articulados com o potencial de novas ferramentas de comunicação imprime freqüentes mudanças e inovações na forma de transmitir e comunicar a produção e criação de culturas e conhecimentos. A comunicação científica é a mãe de todos os meios de difusão e socialização do conhecimento e da informação, cabe a ela nesse novo marco político coordenar e executar as inúmeras possibilidades e potencialidades da comunicação (periódicos, portais, programas de rádio e TV, redes sociais, encontros, seminários, etc.)

Duas tarefas aparentemente são essenciais e freqüentes no meio acadêmico; o aperfeiçoamento na maneira de comunicar a experiência e a produção científica através dos novos meios e a ampliação da audiência dessas informações e conhecimentos para a sociedade. Utilizar o potencial dos mecanismos desses novos meios de comunicação para a difusão do conhecimento científico, formal, informal e semi-formal tem sido objeto constante de debates, seminários, publicações, etc.

Segundo o professor Cerqueira Leite a boa divulgação científica se confunde com o bom jornalismo científico. A questão primordial é tornar acessível à complexa pauta científica ao cidadão comum distante de laboratórios e completamente alheio ao tipo de linguagem usado nos mais diferentes meios de divulgação da ciência. Observar os critérios técnicos e coloquiais do jornalismo praticado diariamente em jornais, TVs, rádios e internet é uma estratégia que vem sendo utilizado, mas que carece de inovação se considerado as inúmeras plataformas de comunicação disponíveis literalmente nas mãos das pessoas nas grandes, médias e pequenas cidades. A boa divulgação científica por meio da prática do bom jornalismo deve intermediar e interpretar a informação científica de modo a torná-la atraente e acessível a todos de forma democrática e didática.

Se levado em conta a informação como um bem social, o papel da comunicação científica além de cumprir o objetivo de disseminar a cultura e o conhecimento produzido no interior das instituições de pesquisas, cumpre também direta e indiretamente uma tarefa determinante, quando ela fornece subsídios, estudos, estatísticas e tecnologia, através dos mais variados meios de comunicação elementos concretos corroborando decididamente com o processo de consolidação e participação política e científica numa sociedade democrática.

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